quarta-feira, 4 de junho de 2008

há tempos que o tempo


há tempos que o tempo
não desdenha
tempos temporariamente
temporários
há pensamentos que a razão
não sente
pensamentos pensativamente
pensados
há momentos que a memória
não reconhece
momentos momentaneamente
momentâneos
há acasos que o corpo
não espera
acasos casualmente
casuais
há dramas que os sonhos
não contemplam
dramas dramaticamente
dramáticos
há memórias que a chuva
não apaga
memórias imemoravelmente
memoráveis
há tempos certos para tudo
e ainda há tanto tempo
pela frente...

segunda-feira, 2 de junho de 2008

visto-me de rosas pétalas

visto-me de rosas pétalas
em amostras coloridas
do que sou
quero mostrar-te
as minhas novas cores
fortemente suaves
vesti-las só para ti
inebriar-te
nos meus cheiros
maioritariamente inodoros
extasiar-te
na difusão da emoção
do que sei que sou
e não exibo
por contrastes
divergências
ou pudores
descobre-me hoje
nos rosas
e em todas as outras cores

tenho sonhos serenos


tenho sonhos serenos
tranquilos
momentos doces
de fácil abandono
em levitações
de meros sorrisos
tenho sonhos duros
muito agrestes
de espinhos profundos
que se enterram
na carne desprotegida
tenho sonhos cheios
e vazios
sonhos de cores
e de pretos, brancos e cinzentos
sonhos cálidos
e gelados
hoje os meus sonhos são doces
tão doces como tu
que também sonhas
em momentos mistos
de poucos sonhos e tantas realidades

a casa ficou deserta



a casa ficou deserta
sem sons
só ecos da tua ausência
envolta em teias
tecidas com arte e mestria
aprisionada em fios
deixou de respirar por si
abriu fendas
e deixou o vento entrar
em uivos alucinantes
com ele vieram as folhas
o pó
a poeira
o tempo arrefeceu tanto...
e na casa começou a derrocada

escrevo-te em recantos



escrevo-te em recantos
que só eu conheço
feitos de papéis
de folhas brancas
escrevo-te memórias
guardadas fundas
em dias de sol
de lua e mar
lembro-te os segredos
incontidos
em frases soltas
escrevo-te a saudade
que ainda tenho
daqueles momentos
em que ocultos
fomos procissões
rezas e prantos

reencontro?


percorro o teu nome
em suaves movimentos
enquanto permaneço
imóvel no tempo
em que parti
de ti
sinto-te na noite
invicta
em que nos descobrimos
em terras
de Pedro e de Inês
por entre
clandestinidades consentidas
feitas de sonhos
tão ternos...
neste hiato doloroso
vezes sem conta
as nossas estrelas
permaneceram separadas
temi tantas vezes
por elas
que desisti de olhar o céu
hoje atrevi-me
a procurar a tua
permanecem
aparentemente intactas
neste vastíssimo
universo
destino?
sorte?
reencontro?

sábado, 31 de maio de 2008

procuras-me


procuras-me
de mundos tão distantes
em acasos
descobres o meu rasto
inflectes e páras
na leitura das peças
que tenho para mostrar
por vezes sentes algo mais
e voltas transportado
sem saberes
em sentimentos de empatia
pela pele
que reconstruo
em acasos de sentimentos
flutuantes
que sentes tantas vezes
como teus
descubro-te e
partes novamente
para locais que nunca conheci
voltarás um dia certamente
se te sentires
bem junto de mim

quinta-feira, 29 de maio de 2008


sim, admito
olho-o em demasia
por dentro
por fora
por todos os angulos
caiu quando me desliguei de ti
dilatou quando vos alberguei
voltando à posição original
uma, outra e outra vez
oculto-o
destapo-o
orgulho-me dele
e sei que tenho de o esquecer
para poder olhar em frente
prometo que tentarei

quarta-feira, 28 de maio de 2008

tenho momentos perfeitos

tenho momentos perfeitos
sublimes
perdida em suaves véus
escuto os silêncios
zen
dos repuxos que saltitam
em vegetações luxuriantes
envolta em transparências
bambus
beijes
e cores de terra
sinto o mar correr nas minhas veias
enquanto riachos
percorrem o meu corpo
em luzes ténues e músicas envolventes
escondidas na nudez
que a brisa não perturba
nem agita
perco-me na suavidade
deste momento
enquanto inspiro fundo
todos estes cheiros inodoros
de prazeres novos acessíveis

terça-feira, 27 de maio de 2008

marcas de sonhos


guardas marcas de sonhos
de dias duros no olhar
silenciosamente puro
esqueces-te de ti
do teu retrato
amarfanhado pelo tempo
longínquo
em que buscaste abrigos
nos sons soberbos
do mundo duro
onde te moves
em peles curtidas
por sóis cinzentos
e terra vaidosamente estéril

gosto de cor


gosto de cor
de azuis
concretamente
de cores fortes
decididas
vigorosas
puras
das sombras
que não sufocam
e se limitam
à sua condição
gosto de decisões
azuis fortes
que não desbotem
com o tempo
conjugadas com brancos
gregos
da cor da cal dos muros
que já não me circundam
e de barcos flutuantes
que resistem às tempestades
imprevistas

domingo, 25 de maio de 2008

hoje estou lenta


hoje estou lenta
pegajosa
carregando a minha casa
às costas
em dias de moleza
arrasto-me
nas coisas que não me apetecem
podia correr
mas não quero
podia sair da casca
mas aqui estou segura
encolho-me se me tocas
circulo se tu não estás
lentamente deixo rasto
por onde passo
naquilo que toco
mas hoje não estou frágil
só me arrasto
lentamente
para compensar os dias
em que corro

quinta-feira, 22 de maio de 2008

um dia acordo-te com beijos



um dia acordo-te com beijos
vestida de jacarandás
fujo das torres de marfim
liberta em gritos
de gaivotas estridentes
um dia afasto a madeixa de cabelo
e olho-te no espelho
revendo-te em invenções
perversas enquanto
me choco em estereótipos
alternados com rituais
de dança
um dia fujo para a Índia
exótica
nos cheiros das especiarias
que embriagam os sentidos
enquanto me cobres de jóias
feitas de pétalas
contas baças
e de beijos
um dia acordo sem me conhecer
despida de identidades
fabricadas
um dia leio-te poemas
disfarçados de dias de marés de verão
e areia quente
um dia acordo ao teu lado
e admiro-te o sono
tranquilo que causei
um dia descubro
que vivemos
demasiadas vidas
ocas
frias
quando temos tanto fogo
para descobrir

segunda-feira, 19 de maio de 2008

tenho capítulos



tenho capítulos
letras
pontos
virgulas
interjeições
verbos
proposições
adjectivos
muitas silabas e
até ilustrações
uns escrevi-os eu
outros escreveram-me
tenho capítulos fechados
que não leio
outros releio-os
até lhes esgotar
as letras
há páginas que viro
com cuidado
outras passo-as à pressa
não uso palavrões
só palavras
doces
tristes
gulosas
amargas
que ora dão a mão
a rir-se
ora não querem
encontrar-se
não escolhi ainda
a lombada
deste mero manuscrito
só sei que terá letras
grandes
gravadas em couro

domingo, 18 de maio de 2008

lembra-me para me esquecer


há momentos
que são breves
em que me esqueço
há os outros
que perduram
em que me lembro
de tudo o que não quero
há momentos em que
baralho sentimentos
e os confundo
com recordações
há momentos em que
estou tão viva
que até dói
outros em que morta
já nem sinto
há momentos em que
não falo e só
penso dizer-te
sussurrando
lembra-me para me esquecer

sábado, 17 de maio de 2008

ser crianças

tudo era diferente
o tempo
o espaço
os sentimentos
com que nos moviamos
tinhamos grupos
distintos
hoje envelhecemos
todos
porém estamos vivos
nos pontos de contacto
em que completamos
memórias
e descobrimos que
não estamos assim tão velhos
quando sorrimos
de palavras
trocadas ao despique
na febre dos momentos
em que despimos
os fatos que envergamos
e nos permitimos voltar
a ser crianças

é tempo de fazer mudanças


sento-me na sala
deserta
liberto os sapatos
enrosco-me no sofá
olho em torno
os objectos
que permanecem
estáticos
há tanto tempo
mantive as cortinas
na mesma posição
presas por cordas
que me afogam
como estas quatro paredes
a lareira apagou-se
há muito tempo
as janelas têm as grades
que me prendem
na luz intermitente
do exterior
as paredes amarelecem
com o fumo do tabaco
avisto uma teia de aranha
solitária
escapou à ira das limpezas
é tempo de fazer mudanças

sexta-feira, 16 de maio de 2008

não quero abrandar


não quero abrandar
amolecer
acomodar-me
a mim
aos outros
não quero parar
nem um momento
quero avançar
sem ter de envelhecer
por dentro
não quero perder
o sonho
a ilusão
o espanto
não quero perder
a emoção
de saber viver

quinta-feira, 15 de maio de 2008

eu sou real


eu sou real
estou aqui
comigo mesma
nos dias
nas noites
nas estações do ano
nos meses que se arrastam
tu não sei
tu serás uma ficção
quando te espero
nos dias em que olho
por cima do ombro
e não te sinto aqui
quando preciso
nesses dias olho em frente
sem desvios
embora me sinta
verdadeiramente real

quarta-feira, 14 de maio de 2008

invento a personagem


invento a personagem
visto-lhe a pele
desligo-me
encarno o meu papel
aqui sou aquela
que não sou
em diálogos inventados
que nunca verbalizo
cubro-me com
as vestes necessárias
no palco
saio da minha pele
na busca de outra
acabarei por voltar